Guilherme Bergamini

”Eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são.“
O mundo evolui de modos diversos, em tempos diversos, por razões as mais diversas. Faz-se necessário notar que, enquanto na Europa do início do século XX, cientistas como Carl Gustav Jung, Sigmund Freud e muitos outros se dedicavam a compreender as questões e mistérios da mente humana, inaugurava-se no Brasil, na Cidade de Barbacena, o Hospital Colônia, que viria a ser palco de uma das maiores barbáries já cometidas em nosso país – mesmo a despeito do fato de que o Brasil também houvesse produzido cientistas comprometidos com a ética essencial e com as mais nobres questões humanitárias.
O verbo ser, conjugado no presente do indicativo afirmativo, torna-se definitivamente a única e verdadeira resposta para a questão arquetípica proposta por William Shakespeare, acrescida do item sobre a loucura: Ser louco, ou não ser louco… E torna-se também o mesmo verbo, conjugado no mesmo tempo e no mesmo modo, a única e irrevogável resposta para a mesma questão, acrescida do item sobre a responsabilidade individual e social com relação ao tratamento dispensado a indivíduos portadores de sofrimento mental e às suas famílias: Eu sou responsável, tu és responsável, ele é responsável… e assim por diante. A responsabilidade se estende a que episódios, como o do chamado Holocausto Brasileiro, não mais se repitam; a que definitivamente se extirpe de nossas sociedades o preconceito com relação ao sofrimento mental e a todas as questões a ele pertinentes; a que se revejam todos os conceitos sobre saúde, sua manutenção e cultivo, em todos os seus âmbitos. É de todos a responsabilidade de que se revejam os conceitos sobre doença – tratamentos, enfrentamentos e curas. Finalmente, é imperativo esclarecer a todos que saúde, em todos os seus aspectos, não seja privilégio, fonte de enriquecimento ou responsabilidade da qual se possam eximir indivíduos ou sociedades.
Ou a humanidade, no presente instante, se decida a evoluir por inteiro, em todos os aspectos, ou se declare apta à própria extinção.

Texto: Luiz Gomide – Artista Cênico, integrante do elenco da peça Nos Porões da Loucura.
Fotografia e concepção: Guilherme Bergamini.
Pintura: Clifford Dutra – técnica mista, sublimação sobre papel e aguada de nanquim,
inspirada na fotografia de autoria de Luiz Alfredo Ferreira, repórter fotográfico da extinta revista O Cruzeiro.